Melancolia Natalina

O Natal é melancólico, talvez a mais melancólica das festas. Talvez por ser a última festa do ano que vai embora – a festa do ano novo é para o ano que entra – onde as pessoas estarão reunidas com suas famílias, grande festas, pequenas festas e até nenhuma festa. A maioria das pessoas no mundo não tem nada a celebrar mesmo e as que celebram nem sabem porque estão fazendo isso, é apenas uma celebração de muita comida onde muita comida é jogada fora. Muitas famílias que se reunem não se gostam, ou quando juntam-se acabam é bebendo demais e falando coisas que não teriam coragem de resolver sóbrias. Aqui no Brasil o Natal tem pouco sentido quando vê-se pinheiros decorados com luzes e a figura do velho Noel com aquela roupa toda sofrendo no calor de 40 graus. Acho que coqueiros decorados ficariam mais emblemáticos. E o papai Noel poderia vestir uma bermuda com uma camisa bem fresquinha. O Natal no Brasil é data pra recolher comida e brinquedos pros que não tem nada, existem várias campanhas para isso, nunca participei de nenhuma. Neste Natal acho que não comprei presente pra ninguém e até começo a me sentir mal por isso, mas se é por intenção, será que gostariam de receber um cartãozinho com um poema bonitinho? Humm, eu ia é ser debochado. Tem que ser presente usável. Vou comprar pro ano novo alguma coizinha afinal o Natal é pra dar presente né. Não tem saída. As lojas abrem no dia 24, me esperem sentados.
O Natal é bom pra resoluções de ano novo, porque no ano novo você vai festejar e não terá tempo de pensar em mais nada, No dia de Natal você tem tempo, no começo de dezembro o povo todo acelera, vai para as ruas gastar muito dinheiro parecendo que o mundo vai acabar, para depois na noite do dia 24 ficar em casa. Faz até sentido nos países que faz muito frio armazenar comida e depois se recolher.
O que temos para comemorar no Natal? Acho que Natal não é pra comemorar, é pra olhar na cara das pessoas que estarão com você nesse dia, ser agradável e repensar muita coisa que rolou na sua vida no ano que passou, talvez até por mais tempo e ver se a sua vida está valendo a pena. Agradecer por tudo, brindar e comer quietinho. É o que eu vou fazer. O Natal é introspectivo e se você não entendeu, talvez pensar sobre isso já seja o seu tema natalino. Afinal quando digo que o Natal é melancólico não chega a ser totalmente triste, mas a tristeza passa na sala de vez em quando, e se der de cara com ela, ela vai acabar dominando seu Natal.

Retirei do Wikipedia, algumas frases interessantes sobre a definição de melancolia (até para ver se estou falando besteira):

No período da Renascença e do Romantismo melancolia era considerada como uma doença bem-vinda, uma experiência que enriquecia a alma.

Sigmund Freud, em seus estudos sobre o superego, se deparou com algo conhecido na época como melancolia. Segundo Freud, a melancolia se assemelhava ao processo do luto, mas sem haver necessariamente uma perda (senão uma perda narcisista).

Portanto, se ninguém está doente, entende-se como um processo de reflexão sobre a vida no Natal. Esse é o meu entendimento natalino. Para não esquecer do verdadeiro poeta, vamos a um poema de Natal:

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

É claro que não fui eu quem escreveu. O autor é Vinícius de Moraes.

Um melancólico Natal à todos, e um feliz 2007.

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